- Está a acabar o ano ...
- Ésta?! Não dei por ele passar...
- ...
- O chão continua escorregadio...está a chover lá fora!
- Oh!
sábado, dezembro 31, 2005
quarta-feira, dezembro 21, 2005
casa ...
Não disse nem mais uma palavra enquanto fumava aquele cigaro, sob a sua própria sombra. Eu permaneci. Eu adormeci. Não entendia o seu silêncio pesado e ele tão pouco quis explicá-lo; talvez ele mesmo não soubesse o que o tinha deixado naquele estado sonâmbulo de não saber sequer onde pôr as mãos,coladas ao corpo.
Não importa!
Estavamos ambos certos que nada dentro daquela casa podia tocar-nos, ou demover-nos; nada do que sentiamos ia ser segredado pelas paredes brancas que só escondiam alma.
O fumo oscilava suavemente entre a vidraça enevoada e os suspiros, e ele...ele não falava. E eu...eu não ouvia! Que corpos estranhos com uma alma dividida...
naquela sala...tudo era nosso, tudo era paz. Dormimos, e o sol já espreitava quando o ouvi dizer muito baixinho ... "é manhã! quero-te!"
Não importa!
Estavamos ambos certos que nada dentro daquela casa podia tocar-nos, ou demover-nos; nada do que sentiamos ia ser segredado pelas paredes brancas que só escondiam alma.
O fumo oscilava suavemente entre a vidraça enevoada e os suspiros, e ele...ele não falava. E eu...eu não ouvia! Que corpos estranhos com uma alma dividida...
naquela sala...tudo era nosso, tudo era paz. Dormimos, e o sol já espreitava quando o ouvi dizer muito baixinho ... "é manhã! quero-te!"
quarta-feira, dezembro 14, 2005
Cinza das brumas cinzentas
Percorre o curso das lágrimas
Vagueia nas estradas humanas da ilusão!
Não há verde neste remar lento
Incapacitado de acção, de vento…
Desejo agua para ti…para te secar
Para limpar teu corpo transformado.
Preciso de agua para te fazer renascer
Do calor das mãos queimadas.
Que chama que não cessa
E arde sem receio e sem amor!
Que fogo de crime mal desenhado pode
Destruir,
Levar,
Trair a alma inocente e livre
De uma aragem continuada.
Cinza do que era um bosque, outrora
Onde os sonhos iluminados
Se despenhavam com prazer…
Agora negra, talvez vazia de respiração!
Não há mais…
Ardeu mais um pulmão, sem retorno,
Morreu meu canto de expressão
Nesse fogo que levou para longe
A alma verde de tudo o que nasce
Para amar a vida simples de uma flor!
Percorre o curso das lágrimas
Vagueia nas estradas humanas da ilusão!
Não há verde neste remar lento
Incapacitado de acção, de vento…
Desejo agua para ti…para te secar
Para limpar teu corpo transformado.
Preciso de agua para te fazer renascer
Do calor das mãos queimadas.
Que chama que não cessa
E arde sem receio e sem amor!
Que fogo de crime mal desenhado pode
Destruir,
Levar,
Trair a alma inocente e livre
De uma aragem continuada.
Cinza do que era um bosque, outrora
Onde os sonhos iluminados
Se despenhavam com prazer…
Agora negra, talvez vazia de respiração!
Não há mais…
Ardeu mais um pulmão, sem retorno,
Morreu meu canto de expressão
Nesse fogo que levou para longe
A alma verde de tudo o que nasce
Para amar a vida simples de uma flor!
Retrato de uma princesa desconhecida
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Sophia de Mello Breyner Andresen
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Sophia de Mello Breyner Andresen
segunda-feira, dezembro 12, 2005
fotografia...
Como repousam os objectos, os edificios, a natureza quando nos ausentamos deles? Repousam em si mesmos, para si mesmos, assentes nos seus próprios traços, linhas e contornos, ou continuarão habitados por uma presença que deles parece ausentada?
Como vislumbrar os sinais dessa ausência habitada que, aparentemente, teima em escapar-nos sob a indistinta e vaga percepção de isolamento e desolação? Vislumbramo-nos através da luz: da luz física que alberga em si uma outra luz que é a memória.
A luz permite ver traços, linhas, contornos, retraça-nos as peculiaridades dos objectos, e de súbito entra em jogo outra luz que nos faz ver os sinais de uma ausência habitada, ainda há instantes habitada, instantes que se estilhaçam em números prodigiosos de horas, anos, décadas, séculos? ...
Entao...quando é que os osbjectos, os edifícios, os monumentos, a paisagem, repousam? Não precisam de repousar. Estão habitados e oferecidos pelo olhar.
Mesmo se, aparentemente, os vemos como ausências: serão, sempre, ausências habitadas.
Alberto Gomes
sábado, dezembro 10, 2005
borboleta...
acorda...
desperta os rumores em redor
e saboreia os silencios...
acordei...
trouxe as palavras
e as saudades
e a melancolias
e as pessoas...
trouxe um odor
um segredo
um jazigo...
uma borboleta...
abri a porta! e entrei...
quem te disse que era aqui,
que dormia minha sombra?
desperta os rumores em redor
e saboreia os silencios...
acordei...
trouxe as palavras
e as saudades
e a melancolias
e as pessoas...
trouxe um odor
um segredo
um jazigo...
uma borboleta...
abri a porta! e entrei...
quem te disse que era aqui,
que dormia minha sombra?
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