domingo, outubro 23, 2005

vem...

Se te trouxe até aqui é só porque sei que te quero, se te falei baixinho ao ouvido é só porque sinto que estás perto. Dizes, nada e suspiras...deixas os sonhos cobrir as manhãs envoltas em cinza e eu deixo a minha mão sobre a tua. Em jeito de carícia, a pretexto de nada. Cobres o corpo com segredos e permites que a alma se dispa, lentamente, com gestos sinuosos de incerteza. Sabes que te quero com cuidado, mais do que o orvalho tardio de um dia de inverno deseja as árvores despidas, mas não te soltas das amarras das palavras.
E neste espaço silencioso de sincero esquecimento procuras um lugar para abandonar essas palavras que não saem da tua boca, jamais sairão, e eu observo, só....silêncio!
Não buscas soluções, procuras perguntas que te acordem os sentidos, que te conduzam à loucura saudável de uma noite mal dormida. Trazes todos os motivos para tardar um pouco mais a descoberta do vazio e escondes a tua face ingénua...
...já é manhã!
* * * * * * * * * * * * * *
estranha solidão...."dá-me a alegria de não ter de ser alegre todos os dias"

quarta-feira, outubro 19, 2005

...prefácio de um dia normal...

... o mundo às voltas
Este mundo dá muitas voltas e as pessoas parece que ficam tontas com as voltas que o mundo dá. E as pessoas conhecem outras pessoas a cada novo passo que dão neste mundo que não pára de andar as voltas. E quando os passos se cruzam a vida é também transferida de pessoa para pessoa porque há muitas histórias por detrás destes passos que se cruzam no mundo que anda às voltas e continua a andar às voltas. E cada nova história por detrás desses passos que se cruzam no mundo deixa um paladar diferente, pode ser adocicado ou ácido, pode ser suave ou forte, pode ser erótico ou podre. E os passos continuam às voltas no mundo rico de pessoas cujos passos se cruzam com histórias por detrás desses passos neste mundo que não pára de andar às voltas. E depois as pessoas querem chorar. E há umas que não se conseguem controlar e só se satisfazem quando berram ou entram num estado total de desespero e decadência. E estas pessoas são dificeis de salvar porque se fecham num mundo que imaginaram numa imaginação tão fértil que, por muito impossivel que pareça, consegue criar um mundo ainda pior do que o real. Mas há outras pessoas que sonham, fecham os olhos e fingem-se personagens de uma bela poesia que fala de amor e vivem de olhos deslumbrados perante este mundo que passa rápido por entre os passos que se cruzam com todas as histórias que se cruzam com eles. E todas as pessoas amam e odeiam e riem e choram. São todas as histórias de muitos passos. E suspiram.

Claúdia Galhós
... nao resisti! encontrei este livro perdido no meio de muitos outros...as folhas já têm um pouco aquele cheiro de livro escondido há algum tempo e sabe bem sentir esse odor...nao é velho! nao tem paginas amarelas...mas estava desaparecido!
só porque sim... sem mais!

à noite a manhã fica muito longe...

quarta-feira, outubro 12, 2005

talvez nao saiba andar...com os pés assentes no chão...

No final de todos os sonhos quero apenas ser uma sombra, para que nao reste nada mais do que os meus traços. Quero esperar até que a manha me acorde alvoroçada com as incertezas das primeiras luzes e sem saber levantar-me de mansinho para me abrir a porta... Quero a paz sussurada ao meu ouvido e nao quero mais contos de fadas...o tempo dos sonhos acabou, agora é voar!

...

ah se eu pudesse nao partir
eu ficava aqui, contigo
se eu pudesse nao querer descobrir...

ah se eu pudesse nao escolher, eu juro,
era este o meu abrigo
se eu pudesse nao saber
que há mais...

mas como pode a lua nao querer o céu?
como pode o mar nao querer o chão?
como pode a vontade acalmar o desejo?
como posso eu ficar?


margarida pinto

domingo, outubro 09, 2005

devolve-me a sede...















Esta fome que devasta
Tem outro nome
Quando me escondo;
Atrás da cortina azulada
É uma coisa diferente
Da fome do corpo;
De olhos bem fechados
É uma faca cravada no peito…
Mas é fome.
Fome do teu corpo maduro
Do teu sabor agridoce
Na minha língua salgada,
Sede da tua pele
E do teu desejo incansável.
Esta saudade que consome
Até as células da alma
Que não guardei para ti,
Esta fome que atormenta o meu cansaço
Mesmo no meu refúgio
(que eu pensava secreto).
Esta angústia que atemoriza
O meu sono solitário,
O meu estado de embriaguês permanente
Sem sentido.

Deixa o meu sono sossegado
Dormir em paz
Não quero nada dos sonhos,
Só ir para longe de ti
Onde eu não sinta esta fome…
Quero voar sem ti
E deixar-te adormecer sozinho
Na sombra do que plantamos.
Quero descobrir que não te quero,
Que não preciso de ti.
Mas agora,
Neste segundo de infortúnio
Seguido de outros
(tão eternos como este)
Tenho fome de ti!

dizem que a paixão o conheceu

"mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite
enumera o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice
conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo
dizem que vive na transparência do sonho à beira-mar
envelheceu vagarosamente sem que nenhuma ternura
nenhuma alegria
nenhum ofício cantante o tenha convencido a permanecer entre os vivos"
Al Berto